Julia em Grãos

Minha Jornada Fotográfica

Minha história com a fotografia não começou com um clique, mas com um resgate. No final de 2020, enquanto o mundo se recolhia, meu pai abriu um armário e me entregou uma Canon EOS 3000 que estava em repouso há quase vinte anos. Aquele objeto, parado no tempo, tornou-se minha principal conexão com a rua. Em plena pandemia, a fotografia analógica foi o meu fôlego; eu atravessava a cidade de máscara, levando meus rolos para o laboratório com a ansiedade de quem espera uma mensagem de outro tempo. O que era um hobby solitário de isolamento logo pediu mais espaço e, em 2021, a busca por pessoas com a mesma paixão que a minha me levou ao "Rolé Analógico". Ali, o que eram encontros mensais para trocar ideias transbordou para a criação do coletivo Analógico de Janeiro, que logo me juntei também.

Praça XV

Com o coletivo, começamos a produzir de forma mais séria. Fizemos juntos o primeiro festival carioca de fotografia analógica na Cinemateca do MAM, além de uma exposição no Parque das Ruínas e a exposição itinerante "Rolé", que ganhou um edital da UFF.Foi nessa época também que o meu caminho cruzou com o balcão da Centro Foto Copa. Sob a mentoria do Seu Victor, aprendi a revelação manual em preto e branco, entendendo que a alquimia do laboratório é o que dá vida a fotografia em película.

A busca por expandir esses limites levou-me, em 2023, ao Paralaxe Lab, projeto de extensão da ECo-UFRJ. Se no laboratório comercial eu buscava o rigor, no Paralaxe descobri a liberdade da experimentação. Aventurei-me em processos como quimigramas, cianotipia e revelações alternativas com café, cerveja e elementos orgânicos. No projeto, integrei a produção de duas edições da Semana Experimental de Fotografia na Praia Vermelha, consolidando a ideia de que o fazer fotográfico é um campo de possibilidades infinitas.

Hoje, entendo que minha dedicação ao filme vai além da estética. Para mim, a fotografia analógica é um escapismo necessário ao imediatismo sufocante dos tempos modernos. Em cada rolo que rebobino e em cada banho químico no laboratório, encontrei uma ferramenta poderosa para lidar com a ansiedade. O processo analógico ensinou-me a ter paciência, a respeitar o tempo das coisas e, acima de tudo, a respirar mais devagar e fundo. No silêncio da câmara escura ou no visor de uma câmera de 20 anos, encontrei o meu ritmo.

Ensaios sob Concreto