Uma Dupla Exposição Acidental
Em 2023, participei mais uma vez da produção do Festival Carioca de Fotografia Analógica. Dessa vez, além de atuar na produção, fui curadora e ministrei a oficina de Narrativas em Meio Quadro. Ao final do evento, sobraram dois rolos de filme e pude levá-los para casa. Guardei-os por alguns meses até que, em abril, decidi usar um numa noite qualquer na casa do meu querido amigo Diogo Conde.
Eu amava frequentar a casa dele. Ficávamos à toa escutando música (tanto no YouTube quanto no toca-discos), comendo 'nargets' (nossa apelido carinhoso para nuggets) ou pipoca doce ao rum, enquanto maratonávamos séries e filmes. Nesse dia, levei minha querida saboneteira e um filme Fomapan 200 aparentemente novo. Fizemos várias fotos 'podrinhas', sem muita cautela; eram apenas lembranças entre amigos, nada muito pensado.
No dia seguinte, fui à loja de fotografia onde eu trabalhava e revelei o filme eu mesma. Em menos de 12h, tive o resultado: para minha surpresa, aquele negativo não registrou apenas uma noite de abril num apartamento em Botafogo. Ele revelou, em sobreposição, uma tarde de dezembro no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Entre a cena caseira na casa do meu amigo, surgiam palmeiras, rostos desconhecidos e as formas da arquitetura modernista.
O mais curioso é que, em todas as vezes que tentei forçar uma dupla exposição, calculando cada frame, o resultado nunca funcionava. Só o acaso foi o suficiente para que a mágica acontecesse. Essas imagens não são apenas minhas, nem apenas do fotógrafo anônimo que registrou o MAM em dezembro; elas são o encontro improvável entre os nossos olhares. Talvez a beleza da fotografia analógica seja justamente essa: aceitar que nem tudo está sob nosso controle e que, às vezes, o erro é quem assina a melhor foto. O mistério de quem é a pessoa fez os primeiros cliques, mas agradeço a ela por ter dividido, sem saber, esse rolo de filme e essa memória comigo.
"Ah, Julia, e quanto ao outro rolo?" Esse segue guardado, apenas esperando minha próxima aventura. A ansiedade é grande para descobrir se é um filme virgem ou se já carrega outras histórias latentes. Mas confesso: se for mais um filme 'batido', ficarei feliz em reviver essa experiência de criar junto com o acaso.




